Eu não sei ao certo, mas hoje
parece que eu dei uma puta alavancada nessa depressão que me acompanha há
tantos anos.
Não me atrevi todo esse tempo a
querer eliminar o passado e agora eu me sinto livre. Essas marcas no meu corpo
parecem provar ao mundo que eu assumo a minha desgraça e que já foi. Eu quero
conseguir agora tudo aquilo que eu desejo. Quero que a vadia da minha madrasta
vá embora da minha vida, quero morrer de tanto ouvir música, morrer nos braços do
Léo.
Léo. Será que um dia eu
realmente vou poder morrer naqueles braços? Hoje ele me disse coisas que me
deixaram perturbada. Como eu sou idiota, eu aqui pensando nele. Ele nunca vai
querer ficar com alguém que lembra um trauma horrível de sua vida. E eu também
não devia querer ficar com a vida da Laurinha pra mim, ela morreu pelo meu
egoísmo, porque eu achava que o mundo deveria girar em torno de mim e não dela.
Mas isso, como eu já disse, é página virada. Vou cair na noite hoje, regada a
muita cerveja! Isso me lembra que eu tenho que ligar pra desmiolada da Sol,
merda, esqueci.
Hasta luego, diário.
Paula Esdras”
Logo
que terminou, Paula guardou o caderno no criado-mudo, trancando a gaveta com
chave. Pegou o telefone para ligar para Sol, sua melhor amiga, que ironicamente
trabalhava para seu pai.
- E
aí mulher, dia longo?
- Paula? Nem me fale, eu já ia ligar pra você.
- Que
houve?
- Você ficou sabendo do
lançamento da semana que vem, não sabe?
- Nem
sei. Você sabe que essas coisas não me interessam.
- Pois deveria! É seu
patrimônio. Você inclusive estudou pra administrar essa empresa.
Ela
não gostava nem um pouco de ouvir broncas, mas não queria se irritar com a
amiga. Preferiu acender um cigarro para acalmar os ânimos.
-
Tá... Mas o que é que tem?
- Você sabe que a modelete agora acha que
manda e desmanda aqui? Ela tava espalhando que ia te convidar porque tem
certeza que você não viria e assim não estragaria o evento dela.
-
Puta! Eu não ia mesmo, mas só pra incomodar agora eu vou nessa merda de desfile.
– Resmungou ela, dando uma tragada no cigarro.
- Muito bem! Era isso que eu
queria ouvir de você, amiga!
- Mas
eu tenho algo mais legal pra te convidar.
- Manda.
- República hoje à noite, o que acha? Não
diga que tem que trabalhar, hoje é sexta-feira!
- To dentro! Você vem me
buscar?
-
Claro. Até as onze.
- Uhul!
O República era um dos lugares favoritos
delas. Paula vestia um jeans preto
rasgado nos joelhos e uma camisa xadrez em tons de vermelho, bem solta, para
que não raspasse na pele ferida pela tatuagem. Os olhos como sempre pareciam
dois hematomas gigantes, ou olhos de panda, negros, esfumaçados. Nos pés
estavam os velhos tênis “all star” de
couro preto, surrados. Dessa vez
preferiu prender os cabelos castanhos, deixando as pontas descoloridas mais
evidentes.
“Moooooove!
Ask the angels who they're calling,
Go ask the angels if they're calling to thee
Ask the angels while they're falling
Who that person could possibly be”
Go ask the angels if they're calling to thee
Ask the angels while they're falling
Who that person could possibly be”
-
Você está uma gata, Sol.
-
Ah, você também querida! To loca pra entrar. Mas olha o tamanho da fila.
-
Não seja burra, a gente é VIP!
-
Meu, você tem razão.
O
som era muito alto, mas logo que entrou, Paula começou a pular. O lugar era um
completo caos, ela adorava. A princípio viu Léo numa roda, bebendo cerveja,
rindo com os amigos. Estava bonito, pensou, sempre gostou daquela camiseta do Guns N’ Roses com capuz. Ele a viu e
acenou com a cabeça, voltando a conversar.
-
PAULA, ACORDA.
-
Ai desculpa! É que o barulho é muito alto.
-
Eu sei! Vamos, vai ter um duelo.
Um
duelo acontece quando dois músicos, normalmente amigos, decidem ver quem faz
mais barulho. Depois da barulheira, um cover
excelente do Ramones começou a tocar.
“Twenty, twenty, twenty, four hours to go
I wanna be sedated
Nothing to do, nowhere to go, oh
I wanna be sedated
I wanna be sedated
Nothing to do, nowhere to go, oh
I wanna be sedated
Just get me to the airport, put me on a plane
Hurry, hurry, hurry before I go insane
I can't control my fingers, I can't control my brain
Oh no, oh, oh, oh, oh”
Hurry, hurry, hurry before I go insane
I can't control my fingers, I can't control my brain
Oh no, oh, oh, oh, oh”
- Muito foda! – Gritou Sol.
Léo se aproximou, juntamente com quatro caras que Paula
reconheceu serem um cover da Sex Pistols.
- E aí meninas, buenas.
– Léo deu um beijo estalado na bochecha das duas, entregando uma garrafa de
cerveja para as duas. – Essa é Stella
Artois, é muito boa.
Paula ficou um pouco corada, mas esperava que a escuridão e
as luzes coloridas disfarçassem.
- Conhecem esses loucos? Esse aqui acha que é o próprio Sid Vicious. – Riu ele, apontando para
um garoto alto e magro.
- Eu conheço sim!
Vocês são muito bons! – Disse Paula.
- Esse cara fica enchendo a paciência. – Riu o “Sid Vicious”.
– Vou te desafiar pra duelar.
- Eu não toco nada de baixo!
- Não tem problema. Vai com a sua guitarrinha.
- Então beleza, desafio marcado, haha.
- Essa vou querer ver! – Disse Sol.
O papo se estendeu desde marcas de instrumentos musicais até
o MMA. Curtiram Ramones, The Clash, Patti
Smith, Bad Religion, Green Day, até que chegou a vez dos Sex Pistols.
- Sol, não quer subir no palco e ver o show lá de trás? –
Disse o “Sid Vicious”, com os lábios próximos ao ouvido dela.
Um pouco corada, a garota assentiu com a cabeça.
- Vou ver lá de trás e volto logo Paulinha. – Piscou ela.
Restaram apenas Paula e Léo, em meio a multidão de seres
alternativos.
“Diabos... O que eu digo?”
- E a tatuagem? Ta doendo? – Ele perguntou, para o alívio
dela.
- Não, ta tranquilo... Só se alguém encostar em mim, o que
não é muito difícil por aqui.
- Vem, vamos subir ali pra área das mesinhas, você pode
acabar se machucando.
Oh we're so pretty
Oh so pretty... vacant
Oh so pretty... vacant
But now and we don't care
Oh so pretty... vacant
Oh so pretty... vacant
But now and we don't care
Ela o seguiu por entre a multidão, que curiosamente abria
espaço pra ele e o cumprimentava, como se ele fosse famoso. De certo ele já
havia tatuado boa parte da população ali presente.
As pessoas são sempre tão presas aos seus medos, nunca
percebem que na vida o importante é saciar suas vontades. Paula só conseguia
pensar em como queria que ele segurasse sua mão para guiá-la no meio das
pessoas, mas jamais cogitou a hipótese de estendê-la para ele. Tinha medo das
reações dele, de suas próprias reações, há quem diga que o amor é uma arma
carregada.
Ela se sentia tão idiota perto dele.
---
- Ai querido, você está tão pensativo. – Exclamou Larissa,
penteando os cabelos loiros.
- A Paula saiu depois da janta e não disse pra onde ia.
- Eu não discuto mais isso com você, eu estou sempre te
alertando e você não liga.
Jonas suspirou, perturbado. Procurou se sentar na beira da
cama, com o rosto entre as mãos, pensando.
- Larissa, você não entende não é? Só se preocupa com você.
- Como ousa dizer isso? Eu estou sempre lhe dizendo que há
algo errado com a sua filha!
- Esse é o seu problema! Mas é lógico que há algo errado com
a minha filha, ela quase morreu e infelizmente a irmã dela não teve a mesma
sorte! E a mãe dela foi embora no momento que ela mais precisava! Não fique
olhando pra Paula como se ela fosse uma anormal, ela não vive no mesmo mundo
cor-de-rosa que você.
- Você acha que a minha vida é muito fácil?
- Você tem tudo o que quer!
Larissa ficou furiosa, saindo e batendo a porta do quarto.
Sentando-se na varanda, ela começou a repensar. Quando
conheceu Paula, tentou ser a mais educada possível, construir uma amizade, já
que seriam da mesma família. Mas ela sempre foi arredia, preconceituosa, nunca
permitiu que ela se aproximasse. Ninguém podia culpá-la pelo mau relacionamento
das duas.
A aparência agressiva de Paula lhe incomodava. Ela era uma
moça tão bonita, alta, com lindos olhos castanhos, um belo cabelo comprido e
brilhante. Mas era ofuscada por uma maquiagem pesada e roupas velhas.
- Não ligo mais. Não vou mais tentar ser legal, vou
ignorá-la.
Depois de seu momento de reflexão, ela decidiu voltar e pedir
desculpas.
---
- Você não parece muito contente. – Disse ela, com um sorriso
nos lábios cheios.
Léo bebeu um pouco mais de cerveja e bufou, parecendo
entediado.
- Sei lá, eu curto uma coisa mais pesada. Minha praia não é o
punk.
- Eu sei. Mas tem mais alguma coisa.
- É, eu não devia estar bebendo.
- Ué, por quê? – Riu ela.
- Eu tenho uma luta daqui a uma semana. O meu mestre disse
que é importante estar limpo.
- Luta? Muay Thai?
- É, vão começar as eliminatórias “pro” estadual.
- Não seja por isso, eu bebo a sua cerveja, a minha acabou.
Léo riu, tirando a cerveja da mão dela.
- Essa é a minha última. E daqui a pouco eu vou embora, deixa
só eu achar o moleque pra avisá-lo.
- Não vi o Eric hoje.
- Ele estava ocupado com aquela senhorita das trevas que eu
estava tatuando, lembra? Amanda, eu acho.
Uma garota com longos cabelos azuis, da mesma cor que seus
olhos, se aproximou sorridente. Ela usava uma calça de couro muito apertada e
uma blusa de alcinhas do “Iron Maiden”,
juntamente com botas de couro de salto muito fino. Os braços eram todos
tatuados com flores de cerejeira, carpas negras (Magoi) e Uzushio, uma
espécie de corredeira de águas negras, clássicos desenhos japoneses.
- Aí está o meu herói! – Exclamou ela.
Sem muito pudor, a garota sentou-se no colo dele e colocou os
braços em torno de seu pescoço. Paula a assistiu colar os lábios nos dele, lhe
dando um selinho estalado e molhado, marcando-o de batom rosa chiclete.
Era sobre isso que eu pensava. Ter um pouquinho mais de atitude. Vadia.
- Bem, é a minha deixa pra buscar outra cerveja. – Disse ela,
evitando olhar.
Paula se dirigiu até o balcão, infiltrando-se no meio dos
brutamontes para pedir o tão desejado álcool que lhe faria esquecer o que
acabara de ver.
- Uma cerveja!
- Gatinha, você não parece bem. – Disse o barman.
- Mas eu estou ótima!
Por que ele estava perguntando isso? Não havia sequer sinal
de umidade em seus olhos, nenhuma lágrima brotou, denunciando seus sentimentos.
Eram tão antigos seus desejos que ela aprendeu a guardá-los com amor.
- Meu bem, esse olhar tão triste. Quer uma balinha pra se
sentir melhor? Cortesia minha.
- Uma balinha? – Ela sorriu. –Obrigada.
O barman colocou a pequena bala sobre o balcão, redondinha e
com um sorriso impresso. Sem se tocar, Paula colocou a bala na boca e engoliu
junto com a cerveja, sem querer.
Droga. Acho que estou ficando bêbada.

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