quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Capítulo II - Tudo se resume



Será que tudo se resume a dar um ponto final?
Eu não sei ao certo, mas hoje parece que eu dei uma puta alavancada nessa depressão que me acompanha há tantos anos.
Não me atrevi todo esse tempo a querer eliminar o passado e agora eu me sinto livre. Essas marcas no meu corpo parecem provar ao mundo que eu assumo a minha desgraça e que já foi. Eu quero conseguir agora tudo aquilo que eu desejo. Quero que a vadia da minha madrasta vá embora da minha vida, quero morrer de tanto ouvir música, morrer nos braços do Léo.
Léo. Será que um dia eu realmente vou poder morrer naqueles braços? Hoje ele me disse coisas que me deixaram perturbada. Como eu sou idiota, eu aqui pensando nele. Ele nunca vai querer ficar com alguém que lembra um trauma horrível de sua vida. E eu também não devia querer ficar com a vida da Laurinha pra mim, ela morreu pelo meu egoísmo, porque eu achava que o mundo deveria girar em torno de mim e não dela. Mas isso, como eu já disse, é página virada. Vou cair na noite hoje, regada a muita cerveja! Isso me lembra que eu tenho que ligar pra desmiolada da Sol, merda, esqueci.

Hasta luego, diário.
Paula Esdras”

Logo que terminou, Paula guardou o caderno no criado-mudo, trancando a gaveta com chave. Pegou o telefone para ligar para Sol, sua melhor amiga, que ironicamente trabalhava para seu pai.
- E aí mulher, dia longo?
- Paula? Nem me fale, eu já ia ligar pra você.
- Que houve?
- Você ficou sabendo do lançamento da semana que vem, não sabe?
- Nem sei. Você sabe que essas coisas não me interessam.
- Pois deveria! É seu patrimônio. Você inclusive estudou pra administrar essa empresa.
Ela não gostava nem um pouco de ouvir broncas, mas não queria se irritar com a amiga. Preferiu acender um cigarro para acalmar os ânimos.
- Tá... Mas o que é que tem?
- Você sabe que a modelete agora acha que manda e desmanda aqui? Ela tava espalhando que ia te convidar porque tem certeza que você não viria e assim não estragaria o evento dela.
- Puta! Eu não ia mesmo, mas só pra incomodar agora eu vou nessa merda de desfile. – Resmungou ela, dando uma tragada no cigarro.
- Muito bem! Era isso que eu queria ouvir de você, amiga!
- Mas eu tenho algo mais legal pra te convidar.
- Manda.
- República hoje à noite, o que acha? Não diga que tem que trabalhar, hoje é sexta-feira!
- To dentro! Você vem me buscar?
- Claro. Até as onze.
- Uhul!
O República era um dos lugares favoritos delas.  Paula vestia um jeans preto rasgado nos joelhos e uma camisa xadrez em tons de vermelho, bem solta, para que não raspasse na pele ferida pela tatuagem. Os olhos como sempre pareciam dois hematomas gigantes, ou olhos de panda, negros, esfumaçados. Nos pés estavam os velhos tênis “all star” de couro preto, surrados.  Dessa vez preferiu prender os cabelos castanhos, deixando as pontas descoloridas mais evidentes.
Moooooove! Ask the angels who they're calling, 
Go ask the angels if they're calling to thee 
Ask the angels while they're falling 
Who that person could possibly be”
- Você está uma gata, Sol.
- Ah, você também querida! To loca pra entrar. Mas olha o tamanho da fila.
- Não seja burra, a gente é VIP!
- Meu, você tem razão.
O som era muito alto, mas logo que entrou, Paula começou a pular. O lugar era um completo caos, ela adorava. A princípio viu Léo numa roda, bebendo cerveja, rindo com os amigos. Estava bonito, pensou, sempre gostou daquela camiseta do Guns N’ Roses com capuz. Ele a viu e acenou com a cabeça, voltando a conversar.
- PAULA, ACORDA.
- Ai desculpa! É que o barulho é muito alto.
- Eu sei! Vamos, vai ter um duelo.
Um duelo acontece quando dois músicos, normalmente amigos, decidem ver quem faz mais barulho. Depois da barulheira, um cover excelente do Ramones começou a tocar.
“Twenty, twenty, twenty, four hours to go
I wanna be sedated
Nothing to do, nowhere to go, oh
I wanna be sedated
Just get me to the airport, put me on a plane
Hurry, hurry, hurry before I go insane
I can't control my fingers, I can't control my brain
Oh no, oh, oh, oh, oh”

- Muito foda! – Gritou Sol.
Léo se aproximou, juntamente com quatro caras que Paula reconheceu serem um cover da Sex Pistols.
- E aí meninas, buenas. – Léo deu um beijo estalado na bochecha das duas, entregando uma garrafa de cerveja para as duas. – Essa é Stella Artois, é muito boa.
Paula ficou um pouco corada, mas esperava que a escuridão e as luzes coloridas disfarçassem.
- Conhecem esses loucos? Esse aqui acha que é o próprio Sid Vicious. – Riu ele, apontando para um garoto alto e magro.
-  Eu conheço sim! Vocês são muito bons! – Disse Paula.
- Esse cara fica enchendo a paciência. – Riu o “Sid Vicious”. – Vou te desafiar pra duelar.
- Eu não toco nada de baixo!
- Não tem problema. Vai com a sua guitarrinha.
- Então beleza, desafio marcado, haha.
- Essa vou querer ver! – Disse Sol.
O papo se estendeu desde marcas de instrumentos musicais até o MMA. Curtiram Ramones, The Clash, Patti Smith, Bad Religion, Green Day, até que chegou a vez dos Sex Pistols.
- Sol, não quer subir no palco e ver o show lá de trás? – Disse o “Sid Vicious”, com os lábios próximos ao ouvido dela.
Um pouco corada, a garota assentiu com a cabeça.
- Vou ver lá de trás e volto logo Paulinha. – Piscou ela.
Restaram apenas Paula e Léo, em meio a multidão de seres alternativos.
“Diabos... O que eu digo?”
- E a tatuagem? Ta doendo? – Ele perguntou, para o alívio dela.
- Não, ta tranquilo... Só se alguém encostar em mim, o que não é muito difícil por aqui.
- Vem, vamos subir ali pra área das mesinhas, você pode acabar se machucando.
Oh we're so pretty
Oh so pretty... vacant
Oh so pretty... vacant
But now and we don't care
Ela o seguiu por entre a multidão, que curiosamente abria espaço pra ele e o cumprimentava, como se ele fosse famoso. De certo ele já havia tatuado boa parte da população ali presente.
As pessoas são sempre tão presas aos seus medos, nunca percebem que na vida o importante é saciar suas vontades. Paula só conseguia pensar em como queria que ele segurasse sua mão para guiá-la no meio das pessoas, mas jamais cogitou a hipótese de estendê-la para ele. Tinha medo das reações dele, de suas próprias reações, há quem diga que o amor é uma arma carregada.
Ela se sentia tão idiota perto dele.
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- Ai querido, você está tão pensativo. – Exclamou Larissa, penteando os cabelos loiros.
- A Paula saiu depois da janta e não disse pra onde ia.
- Eu não discuto mais isso com você, eu estou sempre te alertando e você não liga.
Jonas suspirou, perturbado. Procurou se sentar na beira da cama, com o rosto entre as mãos, pensando.
- Larissa, você não entende não é? Só se preocupa com você.
- Como ousa dizer isso? Eu estou sempre lhe dizendo que há algo errado com a sua filha!
- Esse é o seu problema! Mas é lógico que há algo errado com a minha filha, ela quase morreu e infelizmente a irmã dela não teve a mesma sorte! E a mãe dela foi embora no momento que ela mais precisava! Não fique olhando pra Paula como se ela fosse uma anormal, ela não vive no mesmo mundo cor-de-rosa que você.
- Você acha que a minha vida é muito fácil?
- Você tem tudo o que quer!
Larissa ficou furiosa, saindo e batendo a porta do quarto.
Sentando-se na varanda, ela começou a repensar. Quando conheceu Paula, tentou ser a mais educada possível, construir uma amizade, já que seriam da mesma família. Mas ela sempre foi arredia, preconceituosa, nunca permitiu que ela se aproximasse. Ninguém podia culpá-la pelo mau relacionamento das duas.
A aparência agressiva de Paula lhe incomodava. Ela era uma moça tão bonita, alta, com lindos olhos castanhos, um belo cabelo comprido e brilhante. Mas era ofuscada por uma maquiagem pesada e roupas velhas.
- Não ligo mais. Não vou mais tentar ser legal, vou ignorá-la.
Depois de seu momento de reflexão, ela decidiu voltar e pedir desculpas.

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- Você não parece muito contente. – Disse ela, com um sorriso nos lábios cheios.
Léo bebeu um pouco mais de cerveja e bufou, parecendo entediado.
- Sei lá, eu curto uma coisa mais pesada. Minha praia não é o punk.
- Eu sei. Mas tem mais alguma coisa.
- É, eu não devia estar bebendo.
- Ué, por quê? – Riu ela.
- Eu tenho uma luta daqui a uma semana. O meu mestre disse que é importante estar limpo.
- Luta? Muay Thai?
- É, vão começar as eliminatórias “pro” estadual.
- Não seja por isso, eu bebo a sua cerveja, a minha acabou.
Léo riu, tirando a cerveja da mão dela.
- Essa é a minha última. E daqui a pouco eu vou embora, deixa só eu achar o moleque pra avisá-lo.
- Não vi o Eric hoje.
- Ele estava ocupado com aquela senhorita das trevas que eu estava tatuando, lembra? Amanda, eu acho.
Uma garota com longos cabelos azuis, da mesma cor que seus olhos, se aproximou sorridente. Ela usava uma calça de couro muito apertada e uma blusa de alcinhas do “Iron Maiden”, juntamente com botas de couro de salto muito fino. Os braços eram todos tatuados com flores de cerejeira, carpas negras (Magoi) e Uzushio, uma espécie de corredeira de águas negras, clássicos desenhos japoneses.
- Aí está o meu herói! – Exclamou ela.
Sem muito pudor, a garota sentou-se no colo dele e colocou os braços em torno de seu pescoço. Paula a assistiu colar os lábios nos dele, lhe dando um selinho estalado e molhado, marcando-o de batom rosa chiclete.
Era sobre isso que eu pensava. Ter um pouquinho mais de atitude. Vadia.
- Bem, é a minha deixa pra buscar outra cerveja. – Disse ela, evitando olhar.
Paula se dirigiu até o balcão, infiltrando-se no meio dos brutamontes para pedir o tão desejado álcool que lhe faria esquecer o que acabara de ver.
- Uma cerveja!
- Gatinha, você não parece bem. – Disse o barman.
- Mas eu estou ótima!
Por que ele estava perguntando isso? Não havia sequer sinal de umidade em seus olhos, nenhuma lágrima brotou, denunciando seus sentimentos. Eram tão antigos seus desejos que ela aprendeu a guardá-los com amor.
- Meu bem, esse olhar tão triste. Quer uma balinha pra se sentir melhor? Cortesia minha.
- Uma balinha? – Ela sorriu. –Obrigada.
O barman colocou a pequena bala sobre o balcão, redondinha e com um sorriso impresso. Sem se tocar, Paula colocou a bala na boca e engoliu junto com a cerveja, sem querer.
Droga. Acho que estou ficando bêbada.

terça-feira, 4 de outubro de 2011


Bow down
Sell your soul to me
I will set you free
Pacify your demons

Bow down
Surrender unto me
Submit infectiously
Sanctify your demons

Into abyss,
You don't exist.
Cannot resist,
The Judas kiss.

Paula adorava Metallica, não pode evitar cantar assim que ouviu a música soar pela rua. Parou bem em frente ao estúdio, sorrindo, eufórica. Parece que a camiseta combinava com o ambiente.
Leo Marques – Tattoo e Body Piercing
- Esse lugar é demais. – Riu ela, abrindo a porta de vidro.
Quando entrou, sentiu-se no paraíso. O rock pesado soava como o coro dos anjos, os desenhos pendurados nas paredes vermelhas eram monumentos aos seus sonhos mais obscuros. Leo tatuava uma caveira com arabescos na coxa de uma garota gótica, era fantástica.  Ele sorria, conversando com ela, Paula começou a observar as próprias tatuagens que ele possuía no corpo. Olhou para os braços grandes e descobertos, o direito possuía um dragão chinês em tribal, que ocupava quase todo o braço, próximo a uma série de cruzes de malta. No antebraço havia uma enorme clave de sol, repleta de arabescos. O esquerdo tinha um coração comprimido em uma espécie de arame farpado, caveiras das mais variadas, aladas, com rosas, com espadas, mas todas formavam um conjunto harmônico.
- Paula! E aê?
Ela foi despertada do transe, aproximando-se dos dois.
- Tudo bem? – Sorriu ela, guardando os óculos de aviador na gola da camiseta.
- Beleza. O que acha? – Perguntou ele, apontando para a tatuagem quase pronta.
- Cara, é demais. Adorei.
A garota que estava sendo tatuada sorriu. Era muito bonita, um tanto pálida, mas ainda assim bela.
- Foi o Eric que desenhou pra mim, ele só não teve coragem de fazer. – Comentou ela.
- O garoto vai chegar lá, vamos ter paciência. – Riu Leo, ligando novamente a máquina.
Aos poucos o desenho ganhava mais contorno e profundidade, parecendo que queria saltar do corpo. Leo limpou bem a tinta e pediu que ela olhasse o resultado final no espelho logo em frente.
- Ficou demais! – Exclamou ela, colocando os braços em volta do pescoço dele.
Leo gargalhou, satisfeito e a soltou.
- Depois eu agradeço o Eric. – Disse ela, fazendo uma cara sugestiva.
- Há, pode deixar que eu dou o recado. – Ele continuou rindo, enquanto grudava o curativo na perna dela.
- Muito obrigada! Tchauzinho gatão, até a próxima.
- Venha sempre que quiser. – Acenou ele, batendo uma espécie de continência.
Léo estalou os dedos, os pulsos, em seguida o pescoço. Ficar muitas horas na mesma posição às vezes causava certo cansaço muscular, que ele costumava aliviar com um pouco mais de exercícios.
- Cadê o Eric?
- Foi comer alguma coisa. Eu já almocei.
Paula não sabia bem como pedir o que ela queria. E se ele ficasse ofendido? É lógico, ele podia muito bem recusar... Mas ela queria muito e a única pessoa em que confiava para isso era ele. Timidamente, Paula tirou a foto do bolso de trás, desamassando-a com cuidado.
- Eu quero que... Quero que você me tatue. – Disse ela, ainda sem mostrar a foto.
- Claro, eu adoraria fazer a sua primeira tatuagem! E o que você quer fazer?
- Bem, aí vem a parte que talvez você não vá gostar.
- Por quê? É uma banda de pagode? – Riu ele.
- Não, claro que não! – Riu ela, sentindo a tensão se aliviar um pouco mais.  – Eu quero que você faça um retrato, esse aqui.
Perdendo o medo, ela estendeu o braço, mostrando a foto. A princípio ele quis esfregar os olhos, sem acreditar, até que decidiu ser um pouco mais educado e pegar a foto nas mãos.
- Por favor. Eu não confio em mais ninguém pra fazer.
Ele levou um longo tempo em silêncio, apenas observando a foto, consternado.
- Eu... Bem... Eu vou fazer, sem problemas.
- Cacete! Você me deixou tensa aqui. Achei que você não fosse gostar. – Riu ela, um pouco mais tranqüila.
- Tá tudo bem, já faz tempo. Mas vou levar um tempo pra desenhar.
- Eu espero, não tenho nada melhor pra fazer.
- Vou fechar a loja até o Eric voltar e vamos lá pro fundo desenhar.
Cumprindo o prometido, os dois seguiram para o estúdio dos fundos. Leo sentou-se no banquinho, colocando a foto no canto da mesa iluminada e mais uma vez estalou o pescoço, uma mania dos irmãos.
- Senta aí. Você não vai crescer mais. – Sorriu ele.
O clima estava desconfortável. Paula olhava pra ele como se estivesse assistindo-o cortar a própria mão, muito incomodada. Leo desenhava com destreza, vagarosamente, cada traço que compunha o rosto colado das duas.
- Paula, quer parar de fazer essa cara? Parece que você me pediu pra atropelar uma velhinha, ou algo do tipo.
- Desculpa! Mas você não está nem um pouco incomodado?
- Ah, sinceramente não. Eu lembro muito bem desses traços, você não precisa me dar uma foto pra trazer lembranças. Lembro do rostinho levemente redondo, das maçãs proeminentes, dos olhos grandes e castanhos, do cabelo comprido e escuro.
- Tem memória boa...
- Não Paula... Lembro de tudo isso toda vez que olho pra você.
A garota corou, baixando o rosto. A própria presença dela não o deixava esquecer, ela nunca tinha parado pra pensar nisso. Que estúpida tinha sido todo esse tempo, evitando tocar no assunto, contendo-se, quando o simples fato de estar ali já trazia a tona um turbilhão de lembranças. Léo olhou para o rosto dela, tentando desvendar sua expressão. Sentiu que tinha falado demais, mas ele era assim mesmo, não costumava guardar nada do que pensava.
- Engraçado. Pois quando ouvi essa sua descrição não consegui imaginar que se tratava de mim também.
Ele não conseguiu responder, apenas se concentrou no lápis novamente.
- É uma foto bonita. É essa que sua madrasta quer tirar da parede?
- Essa mesmo. Mas agora duvido que ela consiga arrancar a minha pele, ela vai ter que engolir!
- Você quer fazer isso pra provocá-la ou por amor?
- Uou. Agora você socou a minha cara.
- É sério! Tem noção que nunca mais vai sair, não tem?
- É claro que eu tenho!
- Bem, o corpo é seu. Você faz o que quiser. – Riu ele. – “Pega” o violão ali e manda um “Distillers” aí pra mim. Você canta muito bem as músicas deles.


e|--------------------------|
B|--------------------------|
G|--99999999999999999-------|
D|--99999999999999999-------|
A|--77777777777777777-------|
E|--------------------12>2--|

e|--------------------------|
B|--------------------------|
G|--------------------------|
D|--5555--7777--22222222----|
A|--5555--7777--22222222----|
E|--3333--5555--00000000----|
 
e|--------------------------|
B|--------------------------|
G|--------5555--------------|
D|--5555--5555--22222222----|
A|--5555--3333--22222222----|
E|--3333--------00000000----|
 
e|--------------------------|
B|--------------------------|
G|-------5555---------------|
D|-5555--5555--22222222-245-|
A|-5555--3333--22222222-245-|
E|-3333--------00000000-023-|

“Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die on a rope?
Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die?
I wish that you didn't love me no more
I've been dead for years
I wish that you didn't own me no more
I've been here before.
Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die on a rope?
Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die on a rope?”

- Bem melhor! – Ele sorriu. – Olha, acho que está ficando bom.
Paula colocou o violão de lado para observar mais de perto e sentou-se bem ao lado dele. Estava ficando perfeito, aos poucos a mãe e a irmã tomavam forma pelas mãos artísticas dele, chegava a ser inacreditável. Quando ele finalmente terminou, um suspiro de satisfação ecoou pelo estúdio.
- Mano! Tá vivo ai cara? – Ouviu Eric gritar.
-                                            O Eric chegou. – Disse ele para Paula – To aqui no estúdio!
Leo saiu com o desenho na mão, Paula foi logo atrás dele, um pouco ansiosa.
Ele imaginava que Paula um dia deitaria naquela maca, só não sabia quando. Eric parecia impressionado com o realismo do desenho, abobalhado.
- Quando eu crescer quero desenhar assim!
- Você já desenha muito bem moleque. Só precisa aprender a passar pra pele das pessoas.
- Tenho medo de errar. Não dá pra apagar com uma borracha!
- Vocês dois vão ficar tagarelando aí? Quero a minha tatuagem!
- Tá bom resmungona. Onde vai ser?
- Nas minhas costas, embaixo. Do lado esquerdo.
Ela ergueu a camiseta, apontando o local onde queria. Leo calçou luvas e passou álcool na pele dela, colando o desenho feito em papel manteiga e transferindo os riscos.
- Veja no espelho se é aí mesmo que você quer.
Paula deu uma boa olhada e assentiu, dizendo que era ali mesmo que queria.
- Então sente aí, de costas pra mim e inclinada pra frente, pode ser?
- Sem problemas. – Sorriu ela, obedecendo.
Eric colocou uma almofada nas costas do irmão, cuidadosamente e se aproximou para observar o trabalho dele também. As vezes ele reclamava muito pela posição desconfortável em que ficava.
- Valeu. Segura um pouquinho a sua blusa, assim ela não corre o risco de cair sobre o desenho. Posso começar?
- Vai logo!
- Acho que isso foi um sim. – Riu Eric.
Léo colocou uma máscara e molhou bem a agulha na tinta, para começar a fazer o contorno. O barulho da máquina sendo ligada não incomodou Paula como ela imaginava, até que sentiu a queimação da agulha furando sua pele e irradiando o ardor.
- Ahhhh! Porra, isso dói pra caralho Léo! Por que não avisou?
- E achei que você soubesse! – Riu ele.
- Você é quase coberto por essa merda, não achei que fosse doer tanto!
- Haha, não é tanto assim vai! Depois que você fizer essa, não vai querer parar mais. Mano, vai lá atrás do balcão e traz uma boa dose de Jose Cuervo pra essa escandalosa. Esse tratamento é vip, nem todos os clientes têm.
Depois da tequila, Paula ficou um pouco amortecida. A queimação das agulhas se misturou com a queimação do álcool, ficou bem suportável.
- Viu que beleza, ela ficou até quietinha. – Comentou Léo.
Levou a tarde toda para que ficasse pronta. Quando tudo acabou, todos os músculos dela estavam doloridos, por permanecer na mesma posição e Léo estalou as articulações como costumava fazer.
- Mano, deixa eu fotografar isso! Ficou foda!
- Realmente, é o melhor retrato que eu fiz. Mas vamos esperar cicatrizar pra tirar a foto.
- Hey, querem parar de tagarelar e me deixar ver?
- Pode ir lá ver, na frente do espelho.
Paula correu como um raio até o espelho, virando-se.
- Uau. – Um longo momento em silêncio sucedeu – É incrível... Parece que elas estão olhando pra mim, é lindo!
- Deixa eu fazer um curativo pra você. – Disse Eric, enquanto o irmão limpava a mesa.
- Só quero olhar mais um pouquinho! – Ela admirava a obra de arte com os olhos brilhando, apesar da vermelhidão e do ardor da pele.
Léo deu um folheto com algumas instruções para a garota eufórica, explicando-as pacientemente, tentando contornar a falta de atenção dela. Por um lado ele ficou muito contente ao vê-la assim, não por pena, mas por ele mesmo. No fundo, ele lhe atribuía certa culpa do acidente, no fundo do seu coração calado. Vê-la tão feliz era como provar pra si mesmo que ele não queria o mal dela.
Eric gentilmente colocou uma gaze com esparadrapos sobre a tatuagem, protegendo-a. O sentimento de euforia passou, Paula sentiu-se estranha. Era como se um pedaço faltante do seu corpo tivesse sido devolvido e um capítulo mal escrito da sua vida estivesse se concluindo.
Ela olhou para Leonardo, concentrada. Engraçado ter sido ele capaz de cicatrizar suas feridas. Nunca havia imaginado que ele um dia ia querer olhar para ela, muito menos ser um amigo, e menos ainda... Bem, apesar de não querer admitir nem para si mesma, ela o amava com loucura, desde que colocou os olhos nele pela primeira vez. Gostava do modo que ele a deixava nervosa, do sorriso infantil que formava covinhas nas bochechas e não combinava em nada com aquele monte de músculos.
- Léo. Você fechou um capítulo da minha vida. – Disse ela, com uma pequena lágrima no canto do olho.
- Eu entendo como você se sente. Parece que elas sempre vão estar com você, não é?
Paula não respondeu, apenas se aproximou devagar, medindo as reações do rapaz. Colocou seus braços em torno do tronco dele e ficou esperando ansiosamente que ele a envolvesse também, completando o abraço. Ela foi correspondida por um breve momento, mas logo Léo a soltou, ligeiramente consternado.
- Obrigada. – Disse ela, sem-graça.
- Disponha. – Ele sorriu, mais sem-graça ainda.
- Chega de melancolia né galera! – Exclamou Eric – Hoje tem festival de punk no República! Um dos caras que o Léo tatuou hoje de manhã é um dos organizadores e me deu convites VIPS. – Disse ele, tirando dois papéis do bolso do jeans preto. – Um pra você e outro pra Sol.
- Vou ligar pra ela. Valeu gente, até mais tarde então.
Um capítulo concluído. Agora era hora de se reerguer.