Bow down
Sell your soul to me
I will set you free
Pacify your demons
Bow down
Surrender unto me
Submit infectiously
Sanctify your demons
Into abyss,
You don't exist.
Cannot resist,
The Judas kiss.
Paula adorava Metallica, não pode evitar cantar assim que ouviu a música
soar pela rua. Parou bem em frente ao estúdio, sorrindo, eufórica. Parece que a
camiseta combinava com o ambiente.
Leo Marques – Tattoo e Body Piercing
- Esse lugar é demais. – Riu ela, abrindo a porta de vidro.
Quando entrou, sentiu-se no paraíso. O rock pesado soava como o coro dos
anjos, os desenhos pendurados nas paredes vermelhas eram monumentos aos seus
sonhos mais obscuros. Leo tatuava uma caveira com arabescos na coxa de uma garota
gótica, era fantástica. Ele sorria,
conversando com ela, Paula começou a observar as próprias tatuagens que ele
possuía no corpo. Olhou para os braços grandes e descobertos, o direito possuía
um dragão chinês em tribal, que ocupava quase todo o braço, próximo a uma série
de cruzes de malta. No antebraço havia uma enorme clave de sol, repleta de
arabescos. O esquerdo tinha um coração comprimido em uma espécie de arame
farpado, caveiras das mais variadas, aladas, com rosas, com espadas, mas todas
formavam um conjunto harmônico.
- Paula! E aê?
Ela foi despertada do transe, aproximando-se dos dois.
- Tudo bem? – Sorriu ela, guardando os óculos de aviador na gola da
camiseta.
- Beleza. O que acha? – Perguntou ele, apontando para a tatuagem quase
pronta.
- Cara, é demais. Adorei.
A garota que estava sendo tatuada sorriu. Era muito bonita, um tanto
pálida, mas ainda assim bela.
- Foi o Eric que desenhou pra mim, ele só não teve coragem de fazer. –
Comentou ela.
- O garoto vai chegar lá, vamos ter paciência. – Riu Leo, ligando
novamente a máquina.
Aos poucos o desenho ganhava mais contorno e profundidade, parecendo que
queria saltar do corpo. Leo limpou bem a tinta e pediu que ela olhasse o
resultado final no espelho logo em frente.
- Ficou demais! – Exclamou ela, colocando os braços em volta do pescoço
dele.
Leo gargalhou, satisfeito e a soltou.
- Depois eu agradeço o Eric. – Disse ela, fazendo uma cara sugestiva.
- Há, pode deixar que eu dou o recado. – Ele continuou rindo, enquanto
grudava o curativo na perna dela.
- Muito obrigada! Tchauzinho gatão, até a próxima.
- Venha sempre que quiser. – Acenou ele, batendo uma espécie de
continência.
Léo estalou os dedos, os pulsos, em seguida o pescoço. Ficar muitas
horas na mesma posição às vezes causava certo cansaço muscular, que ele
costumava aliviar com um pouco mais de exercícios.
- Cadê o Eric?
- Foi comer alguma coisa. Eu já almocei.
Paula não sabia bem como pedir o que ela queria. E se ele ficasse
ofendido? É lógico, ele podia muito bem recusar... Mas ela queria muito e a
única pessoa em que confiava para isso era ele. Timidamente, Paula tirou a foto
do bolso de trás, desamassando-a com cuidado.
- Eu quero que... Quero que você me tatue. – Disse ela, ainda sem
mostrar a foto.
- Claro, eu adoraria fazer a sua primeira tatuagem! E o que você quer
fazer?
- Bem, aí vem a parte que talvez você não vá gostar.
- Por quê? É uma banda de pagode? – Riu ele.
- Não, claro que não! – Riu ela, sentindo a tensão se aliviar um pouco
mais. – Eu quero que você faça um
retrato, esse aqui.
Perdendo o medo, ela estendeu o braço, mostrando a foto. A princípio ele
quis esfregar os olhos, sem acreditar, até que decidiu ser um pouco mais
educado e pegar a foto nas mãos.
- Por favor. Eu não confio em mais ninguém pra fazer.
Ele levou um longo tempo em silêncio, apenas observando a foto,
consternado.
- Eu... Bem... Eu vou fazer, sem problemas.
- Cacete! Você me deixou tensa aqui. Achei que você não fosse gostar. –
Riu ela, um pouco mais tranqüila.
- Tá tudo bem, já faz tempo. Mas vou levar um tempo pra desenhar.
- Eu espero, não tenho nada melhor pra fazer.
- Vou fechar a loja até o Eric voltar e vamos lá pro fundo desenhar.
Cumprindo o prometido, os dois seguiram para o estúdio dos fundos. Leo
sentou-se no banquinho, colocando a foto no canto da mesa iluminada e mais uma
vez estalou o pescoço, uma mania dos irmãos.
- Senta aí. Você não vai crescer mais. – Sorriu ele.
O clima estava desconfortável. Paula olhava pra ele como se estivesse
assistindo-o cortar a própria mão, muito incomodada. Leo desenhava com
destreza, vagarosamente, cada traço que compunha o rosto colado das duas.
- Paula, quer parar de fazer essa cara? Parece que você me pediu pra
atropelar uma velhinha, ou algo do tipo.
- Desculpa! Mas você não está nem um pouco incomodado?
- Ah, sinceramente não. Eu lembro muito bem desses traços, você não
precisa me dar uma foto pra trazer lembranças. Lembro do rostinho levemente
redondo, das maçãs proeminentes, dos olhos grandes e castanhos, do cabelo
comprido e escuro.
- Tem memória boa...
- Não Paula... Lembro de tudo isso toda vez que olho pra você.
A garota corou, baixando o rosto. A própria presença dela não o deixava
esquecer, ela nunca tinha parado pra pensar nisso. Que estúpida tinha sido todo
esse tempo, evitando tocar no assunto, contendo-se, quando o simples fato de
estar ali já trazia a tona um turbilhão de lembranças. Léo olhou para o rosto
dela, tentando desvendar sua expressão. Sentiu que tinha falado demais, mas ele
era assim mesmo, não costumava guardar nada do que pensava.
- Engraçado. Pois quando ouvi essa sua descrição não consegui imaginar
que se tratava de mim também.
Ele não conseguiu responder, apenas se concentrou no lápis novamente.
- É uma foto bonita. É essa que sua madrasta quer tirar da parede?
- Essa mesmo. Mas agora duvido que ela consiga arrancar a minha pele,
ela vai ter que engolir!
- Você quer fazer isso pra provocá-la ou por amor?
- Uou. Agora você socou a minha cara.
- É sério! Tem noção que nunca mais vai sair, não tem?
- É claro que eu tenho!
- Bem, o corpo é seu. Você faz o que quiser. – Riu ele. – “Pega” o
violão ali e manda um “Distillers” aí
pra mim. Você canta muito bem as músicas deles.
e|--------------------------|
B|--------------------------|
G|--99999999999999999-------|
D|--99999999999999999-------|
A|--77777777777777777-------|
E|--------------------12>2--|
e|--------------------------|
B|--------------------------|
G|--------------------------|
D|--5555--7777--22222222----|
A|--5555--7777--22222222----|
E|--3333--5555--00000000----|
e|--------------------------|
B|--------------------------|
G|--------5555--------------|
D|--5555--5555--22222222----|
A|--5555--3333--22222222----|
E|--3333--------00000000----|
e|--------------------------|
B|--------------------------|
G|-------5555---------------|
D|-5555--5555--22222222-245-|
A|-5555--3333--22222222-245-|
E|-3333--------00000000-023-|
“Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die on a rope?
Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die?
I wish that you didn't love me no more
I've been dead for years
I wish that you didn't own me no more
I've been here before.
Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die on a rope?
Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die on a rope?”
Tell me something, will I die, will I die on a rope?
Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die?
I wish that you didn't love me no more
I've been dead for years
I wish that you didn't own me no more
I've been here before.
Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die on a rope?
Tell me something,
Tell me something, will I die, will I die on a rope?”
- Bem melhor! – Ele sorriu. – Olha, acho que está ficando bom.
Paula colocou o violão de lado para observar mais de perto e sentou-se
bem ao lado dele. Estava ficando perfeito, aos poucos a mãe e a irmã tomavam
forma pelas mãos artísticas dele, chegava a ser inacreditável. Quando ele
finalmente terminou, um suspiro de satisfação ecoou pelo estúdio.
- Mano! Tá vivo ai cara? – Ouviu Eric gritar.
- O
Eric chegou. – Disse ele para Paula – To aqui no estúdio!
Leo saiu com o desenho na mão, Paula foi logo atrás dele, um pouco
ansiosa.
Ele imaginava que Paula um dia deitaria naquela maca, só não sabia
quando. Eric parecia impressionado com o realismo do desenho, abobalhado.
- Quando eu crescer quero desenhar assim!
- Você já desenha muito bem moleque. Só precisa aprender a passar pra
pele das pessoas.
- Tenho medo de errar. Não dá pra apagar com uma borracha!
- Vocês dois vão ficar tagarelando aí? Quero a minha tatuagem!
- Tá bom resmungona. Onde vai ser?
- Nas minhas costas, embaixo. Do lado esquerdo.
Ela ergueu a camiseta, apontando o local onde queria. Leo calçou luvas e
passou álcool na pele dela, colando o desenho feito em papel manteiga e
transferindo os riscos.
- Veja no espelho se é aí mesmo que você quer.
Paula deu uma boa olhada e assentiu, dizendo que era ali mesmo que
queria.
- Então sente aí, de costas pra mim e inclinada pra frente, pode ser?
- Sem problemas. – Sorriu ela, obedecendo.
Eric colocou uma almofada nas costas do irmão, cuidadosamente e se aproximou
para observar o trabalho dele também. As vezes ele reclamava muito pela posição
desconfortável em que ficava.
- Valeu. Segura um pouquinho a sua blusa, assim ela não corre o risco de
cair sobre o desenho. Posso começar?
- Vai logo!
- Acho que isso foi um sim. – Riu Eric.
Léo colocou uma máscara e molhou bem a agulha na tinta, para começar a
fazer o contorno. O barulho da máquina sendo ligada não incomodou Paula como
ela imaginava, até que sentiu a queimação da agulha furando sua pele e
irradiando o ardor.
- Ahhhh! Porra, isso dói pra caralho Léo! Por que não avisou?
- E achei que você soubesse! – Riu ele.
- Você é quase coberto por essa merda, não achei que fosse doer tanto!
- Haha, não é tanto assim vai! Depois que você fizer essa, não vai
querer parar mais. Mano, vai lá atrás do balcão e traz uma boa dose de Jose Cuervo pra essa escandalosa. Esse
tratamento é vip, nem todos os clientes têm.
Depois da tequila, Paula ficou um pouco amortecida. A queimação das
agulhas se misturou com a queimação do álcool, ficou bem suportável.
- Viu que beleza, ela ficou até quietinha. – Comentou Léo.
Levou a tarde toda para que ficasse pronta. Quando tudo acabou, todos os
músculos dela estavam doloridos, por permanecer na mesma posição e Léo estalou
as articulações como costumava fazer.
- Mano, deixa eu fotografar isso! Ficou foda!
- Realmente, é o melhor retrato que eu fiz. Mas vamos esperar cicatrizar
pra tirar a foto.
- Hey, querem parar de tagarelar e me deixar ver?
- Pode ir lá ver, na frente do espelho.
Paula correu como um raio até o espelho, virando-se.
- Uau. – Um longo momento em silêncio sucedeu – É incrível... Parece que
elas estão olhando pra mim, é lindo!
- Deixa eu fazer um curativo pra você. – Disse Eric, enquanto o irmão
limpava a mesa.
- Só quero olhar mais um pouquinho! – Ela admirava a obra de arte com os
olhos brilhando, apesar da vermelhidão e do ardor da pele.
Léo deu um folheto com algumas instruções para a garota eufórica,
explicando-as pacientemente, tentando contornar a falta de atenção dela. Por um
lado ele ficou muito contente ao vê-la assim, não por pena, mas por ele mesmo.
No fundo, ele lhe atribuía certa culpa do acidente, no fundo do seu coração
calado. Vê-la tão feliz era como provar pra si mesmo que ele não queria o mal
dela.
Eric gentilmente colocou uma gaze com esparadrapos sobre a tatuagem,
protegendo-a. O sentimento de euforia passou, Paula sentiu-se estranha. Era
como se um pedaço faltante do seu corpo tivesse sido devolvido e um capítulo
mal escrito da sua vida estivesse se concluindo.
Ela olhou para Leonardo, concentrada. Engraçado ter sido ele capaz de
cicatrizar suas feridas. Nunca havia imaginado que ele um dia ia querer olhar
para ela, muito menos ser um amigo, e menos ainda... Bem, apesar de não querer
admitir nem para si mesma, ela o amava com loucura, desde que colocou os olhos
nele pela primeira vez. Gostava do modo que ele a deixava nervosa, do sorriso
infantil que formava covinhas nas bochechas e não combinava em nada com aquele
monte de músculos.
- Léo. Você fechou um capítulo da minha vida. – Disse ela, com uma
pequena lágrima no canto do olho.
- Eu entendo como você se sente. Parece que elas sempre vão estar com
você, não é?
Paula não respondeu, apenas se aproximou devagar, medindo as reações do
rapaz. Colocou seus braços em torno do tronco dele e ficou esperando
ansiosamente que ele a envolvesse também, completando o abraço. Ela foi
correspondida por um breve momento, mas logo Léo a soltou, ligeiramente
consternado.
- Obrigada. – Disse ela, sem-graça.
- Disponha. – Ele sorriu, mais sem-graça ainda.
- Chega de melancolia né galera! – Exclamou Eric – Hoje tem festival de
punk no República! Um dos caras que o
Léo tatuou hoje de manhã é um dos organizadores e me deu convites VIPS. – Disse
ele, tirando dois papéis do bolso do jeans preto. – Um pra você e outro pra
Sol.
- Vou ligar pra ela. Valeu gente, até mais tarde então.
Um capítulo concluído. Agora era hora de se reerguer.
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