terça-feira, 4 de outubro de 2011

Capítulo I – O carro



- Eric, me passa um cigarro vai.
- Droga Paula, você sempre acaba com todos os meus cigarros – Reclamou ele, tirando um cigarro do bolso junto ao peito da camisa xadrez .
- Bom garoto. – Agradeceu ela, bagunçando os fios escuros e lisos do cabelo dele.
Os dois garotos estavam sentados na calçada, em plena madrugada fria, na porta do prédio onde Eric morava.  A calça jeans rasgada e a camiseta rota da “Harley Davidson Motorcycles” mal a protegiam do frio, mas Paula não se importava, apenas tragava seu cigarro, prazerosamente, soltando a fumaça para o alto. Eric mantinha seus braços cruzados, tentando evitar que seu próprio calor fosse embora se seu corpo. Começou a cantar, timidamente, até que sua voz soasse em um tom agradável.
- Well, she's walking through the clouds
with a circus mind
that's running round.
Butterflies and zebras and moonbeams
and fairy tales”
- Ahh Hendrix! Você manda bem, cara.
- Eu estava com essa música na cabeça.
- Eu adoraria ter apenas uma música na minha cabeça. É o que eu tenho tentado todo esse tempo.
Ele se virou para ela, colocando a mão sobre seu joelho, gentilmente.
- Olha Paula... As coisas podem ser mais fáceis, sabe?
- Mais fáceis? Você por acaso já matou três pessoas? Então não sabe o que é conviver com isso.
- Você não matou três pessoas, Paula.
- Claro que matei. A ideia estúpida foi minha!
- Meu, as coisas são como devem ser.
- Só eu sei o peso das coisas que eu faço.
Eric pegou o cigarro que repousava no canto dos lábios vermelhos e tragou, estalando o pescoço. Seis anos depois e ainda não sabia o que dizer para sua melhor amiga, a fim de confortá-la. Conheceram-se no colégio, um pouco antes do acidente, quando ela o pegou fumando escondido. E quando tudo aconteceu, eles ficaram ainda mais próximos. Eric lhe ensinou a tocar guitarra, bateria, falar palavrões, a fumar, beber e aprontar pelas noites da cidade, enfim, todas as coisas erradas que adolescentes, ainda mais aqueles que carregam uma grande dor no peito, podiam fazer. Ficava feliz quando conseguia lhe arrancar um simples sorriso.
Sim, Paula era uma garota cujos sorrisos tinham de ser arrancados.
- Eu sei. Só queria que você parasse de remoer o que não tem mais volta.
- To ligada... E agradeço como sempre, irmãozinho.
Paula colocou o braço em volta do ombro dele e lhe deu um beijo estalado na bochecha, marcando-a de batom vermelho.
- Acho que já tá na minha hora né. Eu vou me mandar, valeu pelo cigarro e pela conversa.
- Sempre que quiser. – Sorriu ele.
Levantando-se do chão, Paula se dirigiu para o carro estacionado logo em frente, tirando as chaves do bolso de trás da calça. Era hora de ir pra casa, pensou, ainda decepcionada.
Eric subiu as escadarias do velho apartamento, observando as paredes sujas. Quando entrou, observou o completo caos da sala mais atentamente. Havia sapatos largados por toda parte, garrafas vazias de cerveja e refrigerante sobre os as caixas de som de um rádio potente, papéis, roupas. O seu violão repousava sobre o sofá cor de vinho, embaixo de um monte de almofadas.  Definitivamente eles precisavam arrumar um pouco, pensou.
- O Léo é foda. Nem pra jogar fora o próprio lixo.
- Que é moleque? – Disse o rapaz, saindo sem camisa do quarto.
Leonardo era o irmão mais velho de Eric. Era tatuador, nas horas vagas tocava guitarra e fazia seus bicos de barman. Estava tentando ensinar a profissão ao irmão, que já estava pegando o jeito.
- Nada, é que isso aqui tá uma bagunça.
- Você quis vir morar comigo, agora agüenta.
- Ah tá, tanto faz.
Léo começou a rir do nada, agitando a cabeça. Eric ficou surpreso, não entendendo bem o motivo de tanto riso.
- Do que é que você está rindo? Tenho cara de palhaço?
- Bem, maquiado desse jeito, pode até ser. – Riu ele – Tem uma marca de batom na sua bochecha, garanhão.
O garoto levou a mão até a bochecha, esfregando-a, indignado.
- Foi a Paula, oras.
- Ah, você estava com ela?
- Sim, ela veio choramingar por causa da madrasta. To com fome cara, o que tem pra comer?
- Tem meia pizza de hoje lá na cozinha. “Vamo” lá, daí você me conta.
- Beleza.
Os dois rapazes seguiram para cozinha, um pouco menos bagunçada, exceto pela pilha de louça. Eric pegou a pizza fria da caixa sobre a mesa e começou a comer, enquanto o irmão pegava uma garrafa pequena de Coca Cola e colocava próximo a caixa.
- E aí, que foi que aconteceu agora?
- Parece que a Larissa, a madrasta, quis tirar uns quadros de fotografias da mãe dela e da Laurinha da parede.
- Só isso?
- Ah cara, é foda. Ela e a madrasta têm a mesma idade, tá na cara que a vadia é uma mercenária.
- Ah, mas isso é óbvio, o Seu Jonas sabia disso quando casou com uma modelo. Pra que tanto dinheiro se não se pode nem comprar uma gostosa em paz? – Riu ele.
- Claro! – Riu o garoto também – Mas pra Paula isso é uma putaria, ele trocou a mãe dela por uma biscate.
- Sabemos que a mãe dela ficou um saco desde que a Laurinha morreu.
- É... Mas eu entendo a Paula sabe. A família dela ficou completamente desestruturada. A nossa pelo menos sempre foi.  – Gargalhou ele, cheio de pizza na boca.
- É, coitada. Mas bola pra frente, amanhã a gente tem que ir pro “trampo”. Come aí e vai dormir, moleque.
Léo deu um leve soquinho no ombro do irmão e bagunçou seu cabelo. Os dois fizeram um cumprimento, batendo os punhos fechados e depois a mão aberta, se despedindo.

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Quando não se liga para o dinheiro, as mansões são todas iguais. Não importa se o jardim é iluminado com lâmpadas halógenas de última geração, se a calçada é de pedra brita polida, se as colunas de mármore lembram o próprio Taj Mahal. Nada importava mais para Paula Esdras do que entrar pela porta da frente e ver aquele quadro, uma foto ampliada, da irmã Laurinha e da mãe, Mercedes, abraçadas e sorridentes. Lembrava um tempo de felicidade que não voltaria mais. Eram três horas da manhã, e ela sentou de frente para a foto, observando-a e tirando os tênis “All Star” de couro já gasto.  Ela riu da ironia de como parecia tão desleixada, já que todo o dinheiro que tinha veio da empresa de moda, a Esdras S&A, um império que começou com alguns croquis feitos por sua mãe e que hoje tinha essa proporção. Ela também não ligava pra nada disso e ser mal vestida contribuía ainda mais para irritar seu pai, o presidente. Nada daquela casa interessava, os tapetes importados, os móveis de luxo... Estava contente apenas por ver que aquela foto permanecia na parede ao menos.
- Paula! Isso são horas? – Disse Jonas, seu pai, ao sair do canto da sala.
- Que é que você faz acordado aí pai? Não enche, desde quando você liga pra mim?
- Eu me importo muito com você filha! Você que não permite que eu  me aproxime.
- Aham. – Respondeu com ironia.
- O que você estava fazendo na rua até essa hora?
- Eu estava conversando com o Eric tá, só isso. E eu já sou bem velha, tenho 22 anos, não devo satisfação. Vou dormir agora, faça a mesma coisa!
- Paula, por que você é tão difícil?
Ela sentiu um pouco de pena por ser tão dura com o próprio pai. Apesar de odiar todas as escolhas dele, era o que lhe restava de família, já que a mãe havia se mudado para Nova York.
- Olha pai, boa noite tá. E... Obrigada por deixar a foto lá, é muito importante pra mim.
- Por nada.
Ao deitar na cama, Paula começou a reviver todo o seu dia. Laurinha seria sempre uma sombra na sua vida?
Se estivesse viva, Laurinha teria a mesma idade que Paula, eram gêmeas. E apesar de idênticas, elas tinham diferenças gritantes devido a suas personalidades. Laurinha era falante, sorridente, mas também muito egoísta e mimada. Todos a conheciam no colégio em que estudavam. Paula sentia-se frustrada por ser conhecida apenas como a “irmã da Laurinha”, por que ela não podia ser a garota linda e querida por todos? Eram exatamente iguais! Estava cansada de todos os olhares e presentes que a irmã recebia, de todas as festas que não era convidada, inclusive as que eram dadas em sua própria casa. Mas nunca quis machucá-la e causar dor a tanta gente, apesar de sua frustração.
No dia do acidente, Laura estava dando um churrasco em sua casa. A piscina estava lotada de adolescentes, que riam, jogavam água uns nos outros e cantavam ao som do violão de Léo, sentado na beira da piscina. Paula observava de longe, frustrada. Viu a irmã, vestindo um pequeno biquíni cor de rosa, aproximar-se de Léo e lhe dar um selinho, segurando seu queixo. Eric assim como ela não havia sido convidado.
- Amor, tá vendo aquele Civic? – Exclamou ela, contente, apontado para o carro prata estacionado ali próximo.
- Sim, que é que tem?
- Meu pai “tá” me ensinando a dirigir!
- Mas você é meio novinha não é?
- A gente não vai muito longe.
- Uau, seu pai é muito legal. O meu nunca ia me deixar dirigir. – Comentou Marina, a melhor a amiga de Laura.
Paula sentiu o sangue ferver. Pensou em ir reclamar com o pai, mas ele não estava em casa. Decidiu então desafiar a irmã, tentando fazê-la parecer menos legal.
- Então o papai está te ensinando a dirigir o Civic. – Comentou Paula, saindo de seu esconderijo.
- O que você está fazendo aqui, sua esquisita? Quem chamou você aqui? – Retrucou Laura.
- Pra que ser tão rude com ela? – Reclamou Léo, soltando Laura de seu pescoço.
- Ai, você é tão gracinha quando tenta ser bonzinho.
Léo naquela época, há seis anos, não se parecia muito com o que era atualmente. Não tinha tantas tatuagens, era um pouco mais bronzeado e corado, os olhos esverdeados eram ainda mais claros, além de ter um sorriso caloroso. Também não tinha o corpo tão forte, já que ficou viciado em exercícios após o acidente.
- Só queria que você parasse de mentir. Até parece que você sabe dirigir.
Era possível ver a fúria formar uma expressão naquele rosto delicado e rosado, emoldurado por um cabelo castanho dourado, encharcado de água.
- Tá duvidando irmãzinha? Por que a gente não dá uma volta?
Todos gritaram, instigando a briga: “É!!!”, “Mostra pra ela!”.
- Ei, vamos parar com essa estupidez, beleza? Aqui ninguém precisa provar nada pra ninguém.
- Ela que tá provocando Leozinho.
- Não interessa, já deu vai. Vamos comer, pular na piscina, ninguém precisa fazer uma estupidez tá. Porque não se manda Paula, ao invés de vir aqui arrumar confusão? Vamos ficar na paz, beleza?
Os adolescentes voltaram a entoar seu canto da humilhação, enquanto espirravam água em Paula, que continha suas lágrimas. Ela soube esperar outra oportunidade para provocar a irmã, esperou a noite cair e que todos fossem embora, restando apenas Laurinha e a melhor amiga, Marina. Tarde da noite, quando ainda ouvia a risada das amigas, Paula aproveitou para remoer um pouco mais o assunto, já que os pais ainda não haviam chegado de um evento da empresa.
- Vocês não vão deixar ninguém dormir não? – Reclamou ela, batendo na porta do quarto.
- Ai, cala boca sua amarga! – Riu Laurinha – Só porque o papai me ensinou a dirigir você ficou com raiva.
Paula entrou no quarto, tempestuosamente. Seu corpo expressava uma postura raivosa, indignada. Laurinha vestia um pijama rosa de veludo, e Marina trançava seus cabelos.
- Eu duvido. Prove!
- Laurinha, você não tem que provar nada! Eu concordo com o Léo, é idiotice.
- Eu sei amiga, mas eu preciso ter mais esse gostinho. Só uma voltinha em volta da casa, beleza?
- Tá maluca?  Seus pais vão cortar a cabeça de todas nós quando descobrirem.
- Eles não vão ficar sabendo!
Laurinha se levantou, colocando o tênis embaixo da cama cor de rosa.
- Você não vai conseguir nem ligar aquela merda. – Desafiou Paula mais uma vez.
- Você está prestes a engolir mais uma, sua recalcada.
Marina balançou a cabeça em desaprovação, enquanto a amiga descia as escadas e procurava a chaves na escrivaninha próxima ao bar. Quando as encontrou, beijou-as, seguindo para a porta da frente. O coração de Paula batia rápido: Ela faria isso mesmo?
Laurinha apertou o botão do alarme, desligando-o e destravando as portas. Sentou-se no banco do motorista, ajeitando o banco para suas pernas compridas e colocando a chave no contato. As duas permaneciam do lado de fora, assustadas, principalmente Paula, que quase pensava em pedir desculpas e desistir. Se seus pais soubessem, ela estaria de castigo para o resto da vida, pensou. Mas naquele ponto não havia mais volta para nenhuma delas, o orgulho era precioso demais para ser ferido.
- Não vão entrar não? E você Paulinha, não tinha duvidado tanto? Quero você no banco da frente aqui comigo. – Riu ela, ligando o motor do carro.
O ronco do motor atravessou os músculos de Paula, enchendo-0s de tensão.
Burra, burra, burra.
A garota assustada olhou para Marina, procurando alguma confiança naquele olhar inocente, mas as duas estavam igualmente assustadas. Foda-se, pensou, ela não iria dar pra trás. Sentou-se no banco da frente e tratou de travar bem o cinto de segurança.
- Que besta, pra que esse cinto! É só uma voltinha.
Quando todas estavam acomodadas, Laurinha deu ré vagarosamente. As três seguiram para um volta tranqüila ao redor da casa, sem maiores alterações, o que fez o sangue de Paula ferver. A irmã falava a verdade e por um momento ela se sentiu deixada de lado.
- E agora, tá satisfeita? – Riu Laurinha, divertindo-se.
- Grande coisa... – Murmurou Paula, uma pouco deprimida.
-  Já chega né?
- Ai Marina, que saco, para de irritar. Que medrosa! Eu posso fazer melhor que isso.
Engatando a marcha do carro, Paula seguiu para a porta dos fundos, abrindo-a com o controle automático do porta-luvas.
- Onde estamos indo!? – Gritou Marina.
- Dar uma voltinha, oras.
Um pouco desengonçada, Laurinha saiu da casa e seguiu para a rua deserta, dirigindo vagarosamente. Caíram na auto-estrada e Laurinha olhou para a irmã, esperando que ela desse o braço a torcer. Paula manteve suas feições de que não estava impressionada com nada, até a irmã acelerar a um nível perigoso e o próprio alerta de sobrevivência falar mais alto que o orgulho.
- Já chega Laura! Vamos embora, você ganhou!
- Mas agora que está ficando legal!
Laurinha sorria, mostrando toda a euforia que havia dentro dela. Cem, cento e dez, cento e vinte, nunca havia chegado naquela velocidade. Virou-se para olhar a cara atônita e apavorada da irmã, mas seu momento de triunfo foi interrompido por uma luz forte que bateu em seu rosto, fazendo-a olhar para frente mais uma vez. Um caminhão se aproximava na direção oposta, não oferecendo risco, mas o susto e a inexperiência fizeram a garota virar bruscamente o volante na direção oposta, fazendo o carro perder toda a estabilidade.
Depois disso, Paula se lembrava apenas de um momento de terror, embalado por gritos agudos e imagens deslocadas. Quando acordou, estava numa cama de hospital e começou a tossir violentamente, sentindo o tubo de plástico em sua garganta. Um ser de branco veio rapidamente, enquanto ela recuperava rapidamente a consciência, e removeu aquela coisa horrível dela. Ela olhou para cima, para os lados, atônita, sentindo que faltava um pedaço de suas memórias. Não via nenhum rosto conhecido por perto, até que localizou Eric, com os olhos inchados, próximo a enfermeira.
- O que... Aconteceu? – Perguntou ela, um pouco rouca.
- Não consegue lembrar de nada? – Perguntou a enfermeira.
- Bem... Minha irmã, aquela idiota, resolveu pegar uma estrada com o carro. Cadê ela?
- Sinto muito, Paula. – Disse Eric, com os olhos baixos.
- Sente o quê?
- Sua irmã e a amiga dela faleceram, sinto muito.
- Que tipo de brincadeira é essa?
- É verdade... Seus pais estão com o meu irmão, ele está em choque. Não consegue parar de chorar. A Laurinha estava... Grávida. Era filho dele.
- Isso não pode... Ser verdade.
- Mas você está bem, não é. E vai ficar bem. – Disse Eric, pegando a mão fria.
Morta.
Morre em acidente de carro trágico a filha do empresário da moda Jonas Esdras.
16 anos e uma vida tragicamente interrompida.
Adolescente grávida e melhor amiga morrem em acidente automobilístico.
Essas foram todas as manchetes sensacionalistas que vieram na cabeça de Paula, imediatamente.
Seis anos depois, lá estava ela, lembrando de tudo isso pela milésima vez . Paula odiou mais ainda a madrasta, que queria invadir seu mundo e destruir as lembranças de sua família que rondavam sua casa. Depois do acontecido, sua mãe culpou o marido pela morte da filha, já que a ideia estúpida de dirigir fora dele. No fundo, Paula sentia que havia destruído toda sua família, matando a irmã e separando os pais. E já que não podia fugir do mundo, resolveu se anular como pessoa, afastando-se cada vez mais do lar. Foi a maneira que encontrou para fugir da dor, não sentir nada.
Quando Paula acordou, já era meio dia. Enfiou-se debaixo do chuveiro, lavando bem os cabelos castigados pelo sereno e esfregando os olhos, tentando remover a maquiagem preta escorrida. Sentindo-se revigorada, vestiu o mesmo jeans velho do dia anterior e procurou por uma camiseta qualquer, pegando a do “Metallica”.  Fuçou a gaveta do criado mudo roxo, até que encontrou o que procurava: Uma foto idêntica ao quadro ampliado do hall. Satisfeita, ela colocou a foto no bolso e pegou as chaves do carro, saindo.


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Na sede da Esdras S&A, Larissa passava um pouco mais de blush nas maçãs do rosto. Era muito bonita, alta, loira e magra, olhos azuis e lábios carnudos, uma clássica beleza européia.  Vestia um terninho de risca de giz e uma blusa de cetim verde. 
- Você está um arraso hoje. – Ela disse para sua imagem no espelho, sorrindo e mostrando os dentes brancos.
Seguiu pelos corredores caóticos da empresa, pessoas corriam de um lado para outro com papéis nos braços, modelos semi-nuas corriam de um lado para outro, telefones tocavam. Gostava da decoração clássica do local, e dos grandes vidros que deixavam a luz entrar e mostravam um vista panorâmica da cidade.
- Querido, está ocupado? – Disse ela, entrando no escritório do marido sem bater.
- Não, mas se eu estivesse você já teria me interrompido. – Riu ele.
- Desculpe amor. Eu estou aqui pra falar do lançamento da linha de roupas executivas. O evento está sensacional, a imprensa toda vem, as modelos são lindas, eu vou abrir o desfile!
- Ótimo, meu bem.
- Mas falta uma coisa...
- O que?
- A lista de convidados.
- E qual é o problema?
- Você vai chamar sua filha?
- Mas é claro que eu vou convidá-la, é minha filha! Essa empresa é tão dela quanto minha.
- Calma, calma... Não se ofenda! É que... É um evento de moda, querido, você sabe bem como ela se veste mal.
- Ah Larissa, não venha me atormentar com suas bobagens, eu tenho uma reunião com o meu assistente agora. Quero que você convide sim a minha filha. Eu sei que ela provavelmente não vai, mas ela tem esse direito.
- É isso é verdade... E onde ela está?
- Eu nunca sei.
- Jonas, você devia ficar mais de olho nessa menina. Ela passa a noite fora, bêbada, fumando, fazendo sei lá o que mais!
- Ela não tem jeito, o que posso fazer?
- Seu papel de pai, cuidar dela!  Nem sabe onde ela está agora.
- Larissa, ela é bem grandinha. Agora vai, já te disse que preciso ir.
- Depois não reclame!
- Tá amor, já entendi.
Jonas levantou e se curvou para beijar delicadamente os lábios cheios.  As vezes é preferível ignorar o que não se quer encarar.

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